Silvia Gomes, de Cachoeira do Campo, revela potência do samba mineiro em seu primeiro álbum solo “Canto pra Recomeçar”

Canto para Recomeçar

“Eu me sinto muito confortável de ser uma filha de Vila Rica, de Cachoeira do Campo. Não é qualquer lugar de Minas, né? Minas Gerais já é muito especial, agora, ser de Cachoeira do Campo e Ouro Preto, para mim, é um luxo profundo. É uma honra levar o nome desses dois lugares em qualquer lugar do mundo em que eu esteja apresentando a minha música.” É o que conta a cantora e atriz Silvia Gomes, nascida em Itabirito e criada no distrito de Ouro Preto, Cachoeira do Campo. Ela lançou seu primeiro álbum solo, trazendo o gostinho do samba com influências ancestrais de ritmos como congado, afoxé, moçambique, maracatu e jongo.

Foi um álbum concebido no auge da pandemia, gravado no auge da onda roxa. Um projeto muito importante para mim porque é o meu primeiro álbum solo. Eu tenho outros dois discos em parceria com compositores amigos e o “Canto pra Recomeçar” é o primeiro disco, feito aos 47 anos de idade, em um momento tão delicado, de isolamento social, de incertezas profundas, de tudo que sabemos que a pandemia trouxe de mudança na vida da humanidade”.

declara Silvia.

História e criação do disco

A força pulsante do samba de Minas Gerais, vivido pela artista nas cidades de Ouro Preto e Belo Horizonte, dá sustentação ao seu álbum solo, intitulado “Canto pra Recomeçar”. Ela conta que, através da Lei Aldir Blanc, teve a oportunidade de não apenas fazer seu primeiro disco solo como também de construí-lo parte por parte.

O repertório foi chegando de forma muito natural, porque a intenção foi gravar músicas que eu já cantava nas minhas rodas de samba e shows e músicas que eu ainda não tinha cantado, mas que já eram fruto de uma pesquisa de muito tempo. Sambas que já estavam ali guardados há muito tempo esperando o momento do nascimento desse primeiro disco”

a cantora relata.

Segundo a artista, a música que dá nome ao álbum “Canto pra Recomeçar” é o único samba carioca do álbum. Ela acredita que o movimento presente no projeto veio a calhar com o tempo de produção. Isso porque, há muita conexão entre a ideia de recomeço e o momento que o mundo estava encarando.

“Veio a calhar esse movimento do ‘Canto pra Recomeçar’, porque vai muito além, vai mais além do canto, cantar, né? O movimento de um artista que canta tem muito a ver, para mim, com o contexto desse canto de dentro da gente. Ou o canto como um lugar, né? O movimento de recomeço no momento em que estávamos experimentando de pandemia. Foi um disco gravado em forma de imersão, em um estúdio que fica isolado de tudo, dentro de uma fazenda […]. Eu e a minha equipe ficamos no processo de imersão durante uma semana, então 90% do disco foi executado e gravado nessa fazenda, um estúdio incrível”, explica.

Silvia conta também que todos os envolvidos na produção estavam devidamente testados e isolados. O álbum conta com 11 faixas e desenvolvimento conjunto com artistas da Região dos Inconfidentes. “A gente precisa, às vezes, nascer várias vidas para poder ter acesso ao universo do samba, que é tão vasto, tão potente e incrível. Gigante e imenso”, constata a cantora.

Produção do “Canto pra Recomeçar”

Silvia lembra de citar diversos artistas comprometidos com a produção do álbum, ela conta que foi um grande esforço coletivo. Alguns dos músicos presentes são: Letícia Afonso (cantora), Tiago Viana (trompetista), Wesley Procópio (direção musical e arranjos), Fernando Costa e Pablo Dias (parceria em arranjos). Em geral, a concepção do disco dependeu de diversas mãos, tendo André Lanari como produtor. Ademais, Rodrigo de Castro Lopes assina a mixagem e a masterização e o designer Pedro Miranda produziu a capa e o encarte do álbum à partir da tela feita pela artista plástica Leonora Weissmann.

Grata às figuras presentes na execução desse processo, a artista compreende que seu propósito de vida passa pela conexão com o canto, com a arte, com transformar a vida das pessoas através da arte. Silvia não hesita ao falar sobre a influência da região em sua música: “Eu amo ser da roça e ter sido criada em Cachoeira do Campo […]. Eu tenho profundo amor por Cachoeira do Campo.” Nesse sentido, ela explica que a música vinha de dentro de casa, já que sua família materna era extremamente musical.

Sobre a artista

Silvia Gomes iniciou seus estudos artísticos em 1994, no Instituto de Filosofia e Artes da Universidade Federal de Ouro Preto. Quatro anos depois, em 1998, deu o pontapé inicial para a carreira musical, quando integrou o grupo Mandrágora. Em 2003, lançou o álbum “Fuscazul”, em parceria com o compositor e cantor Mestre Jonas. No mesmo ano, recebeu o prêmio de melhor intérprete na Mostra Cauê de MPB, em Belo Horizonte.

Um dos desafios encontrados em seu caminho foi o tempo de espera. Lançou discos em 2003, 2018 e em 2023. A artista comenta que teve de olhar com paciência para o passar do tempo e que se orgulha de terem sonhado esse sonho juntos. De acordo com ela, através do apoio da Lei Aldir Blanc, a equipe responsável teve acesso, assim como diversos artistas pelo Brasil, à realização de um sonho que existia há algum tempo.

Atualmente, ao ouvir o disco, ela entende que se trata de uma mensagem de esperança e de alegria por estarem vivos.

Eu sinto esse álbum como um grande rezo, sabe? Ele tem sambas que falam de orixás e energia da natureza, tem o sotaque do congado mineiro misturado com o samba”

ressalta.

Faixas de “Canto pra Recomeçar”

  • Abrindo o disco, “Volta de Lua”, um samba inédito de Miguel dos Anjos, compositor e amigo de longa data da artista;
  • A segunda faixa é “Não Pagarei com o Mal”, um samba que sempre esteve presente nos repertórios de shows da artista. É uma composição do saudoso Mestre Jonas, importante parceiro da artista, que faz uma conexão com o momento político vivido pelo país nos últimos anos;
  • Regravação do samba “Clássico Ballet”, dos compositores Dé Lucas e Ederson Melão;
  • “Canto pra recomeçar”, dos cariocas Fernando Procópio e Tinho Brito, dá nome ao projeto e celebra a amizade e a conexão entre a cantora e os compositores;
  • “Kayala” é um poema feito pelo multiartista Dhu Rocha. Um diálogo com a mensagem da letra do samba evocando a religiosidade afro-brasileira, a luta e a resistência;
  • “Canto pra Janaína”, de Gabriel Goulart e Luiz Lobo, contemplando sua força “mesmo das montanhas de Minas”;
  • “Mira os olhos minha sabiá”, de Milena Torres, foi composta exclusivamente para este trabalho e contou com a participação luxuosa do trompetista Tiago Viana;
  • “Santos e Luz” é mais uma canção de Mestre Jonas, com a participação da cantora e pesquisadora mineira Letícia Afonso. Parceria com Miguel dos Anjos e Mário Roberto Ferreira;
  • Um samba paulistano, uma parceria de Everton Formiga e Sidney Melodia, autores de “Remanescentes”, que também contou com a participação do trompetista Tiago Viana;
  • Da seara de compositores mineiros temos a presença no álbum de Sérgio Pererê, autor de “Estrela Guia”;
  • Encerrando o álbum a composição “Reza”, de Miguel dos Anjos, conta com uma a prece evocada por Sérgio Pererê. A canção versa sobre a fé do povo mineiro e foi construída de forma coletiva, com direção musical de Wesley Procópio, que divide os arranjos com Fernando Costa.

O canto de Silvia

Nas palavras do pianista Túlio Mourão, “o canto de Silvia Gomes faz conexão e metaboliza elementos do Afro e, mais que importantes, são estruturantes na vida e na história de Ouro Preto: Uma cidade, uma sociedade, uma cultura, erguida sobre o trabalho negro escravo”.

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